Milk Run: uma prática enxuta de otimizar a cadeia de suprimentos


Antigamente era comum que as garrafas de leite vazias deixadas em frente às residências fossem substituídas por garrafas cheias logo pela manhã. Quem realizava essa troca por meio de uma rota padrão era o entregador de leite. Anos mais tarde, esse conceito foi adaptado por empresas de diferentes segmentos para fazer o transporte entre os elos da cadeia logística por meio de rotas programadas. Enquanto o modelo tradicional de entregas utiliza um grande número de caminhões e faz entregas em grandes lotes, o objetivo do milk run é otimizar a quantidade de material transportado e o número de viagens ao cliente. A Figura 1 ilustra a diferença entre o modo tradicional de entrega e o modo enxuto.

Figura 1 - Diferença entre o modo tradicional e o Milk-Run / Fonte: Blog CCA Express

Parece ótimo! Quais são as vantagens em adotar este conceito?

Quando o conceito milk run é colocado em prática, pode se alcançar inúmeros benefícios à organização, como por exemplo:

a) Economia: como as entregas são realizadas a partir de rotas programadas, com o milk run economiza-se o número de viagens realizadas, o número de funcionários e o número de equipamentos necessários para o transporte, otimizando a quantidade de material transportado.

b) Produtividade: com o aumento da frequência de entrega/abastecimento é possível trabalhar com lotes menores, o que permite a redução dos níveis de estoque nos armazéns e aumenta o giro de estoque.

c) Agilidade: o milk run ajuda a tornar toda a cadeia logística mais ágil e responsiva às mudanças devido à maior frequência de entregas. Caso ocorra repentinamente uma alteração na produção, o fornecedor terá capacidade de se adequar com maior velocidade às necessidades do cliente.

d) Qualidade: aliada à produtividade, a qualidade também é beneficiada, uma vez que os comboios logísticos apenas abastecem os meios de transporte com peças em bom estado. A alta frequência de abastecimento, a diminuição dos estoques e do lead time aumentam a qualidade média dos produtos, ao passo que estes ficam menos suscetíveis à obsolescência ou avarias tanto no transporte quanto na armazenagem.

Uma das empresas que conseguiu atingir grandes resultados ao adotar a prática do milk run foi a montadora Scania. Em apenas um ano foi possível enxugar a sua frota de caminhões em 100 unidades, além de reduzir em 100 mil quilômetros as distâncias percorridas. Com isso a empresa conseguiu economizar 6% no valor dos fretes pagos. Os bons resultados não estão restritos apenas ao setor automobilístico. A Bosch, por exemplo, reduziu 43% dos gastos com fretes após a implantação do milk run.

Mas o milk run também pode ser usado dentro das fábricas?

O conceito de milk run é usado na logística interna desde os anos 50 pela Toyota com o nome de mizusumashi (besouro d'água), que se refere ao operador de abastecimento interno responsável por fornecer materiais aos diversos postos de trabalho e eliminar os desperdícios de movimentação dos funcionários. Ambas as práticas utilizam a mesma lógica de abastecer em pequenos lotes e com altas frequências, com o objetivo de diminuir os custos totais do sistema.

Mas como o milk run tem uma abrangência diferente do mizusumashi, eles apresentam algumas diferenças na sua implementação. Essas diferenças são causadas principalmente pela diferença de distâncias levadas em conta na aplicação dos dois sistemas. Enquanto o mizusumashi é direcionado para as distâncias percorridas dentro da fábrica, o sistema milk run envolve diferentes elos da cadeia logística, podendo abranger grandes distâncias.

Tanto o milk run quanto o mizusumashi parecem ótimos, mas quais são as dificuldades de implementação?

Embora o milk run seja uma prática poderosa, ele não é aplicável a todo e qualquer grupo de fornecedores e clientes. O milk run é apenas usual onde há um conjunto de fornecedores próximos entre si; se o fornecedor estiver isoladamente longe de uma rota ou de outros fornecedores, ele inviabilizaria uma rota padrão, normalmente por conta de tempo.

Além disso, mesmo que a distância seja adequada, caso a quantidade demandada seja de vários caminhões consolidados, o fornecedor não entrará na rota do milk run, pois será mais barato enviar a carga consolidada de uma só vez. De forma inversa, itens pedidos esporadicamente também não justificam o esforço de se preparar uma rota específica porque torna as rotas dinâmicas e complexas ao sistema.

Para aumentar a frequência de entrega diária para vários clientes ou fornecedores é preciso reduzir o tamanho do lote. No entanto, observa-se que empresas que não possuem a mentalidade enxuta acabam operando com o mesmo tamanho de lote apesar de aumentar a frequência, resultando em um acúmulo de estoques ainda maior do que antes da implementação da prática.

A mesma reflexão pode ser feita para o mizusumashi. A produção interna da fábrica deve ser de pequenos lotes (de preferência, quando possível, unitário) com uma frequência de entrega pré-determinada, dimensionada de acordo com a demanda do cliente.

Resumindo…

O milk run, como visto anteriormente, possibilita a flexibilização da cadeia de suprimentos e padronização das entregas, o que auxilia na redução dos custos de estoques e transporte. Portanto, o conceito da mentalidade enxuta não está restrito apenas para os processos internos da organização. Existem diversas práticas que ajudam na expansão desses conceitos para a logística externa. Eliminar os desperdícios entre todos os elos da cadeia representa uma nova perspectiva sobre o que, de fato, uma empresa deve buscar para se tornar verdadeiramente competitiva.

Qualquer dúvida, o Grupo de Estudos em Lean (GLean) da Universidade Federal de Santa Catarina está à disposição para solucioná-la! Acesse nosso LinkedIn e Facebook.


Posts Recentes
Arquivo
Siga-nos!
  • Facebook Basic Square
  • LinkedIn Social Icon

© 2020 GLean - Grupo de Estudos em Lean