Lean Healthcare: como a mentalidade enxuta funciona dentro dos hospitais.


A primeira tentativa de empregar os conceitos lean em ambientes hospitalares é de tempo incerto, mas os primeiros registros encontrados datam de 2001. Foi nesse ano em que uma agência governamental britânica realizou um estudo com o intuito de definir os potenciais de aplicação do Just-in-time como ferramenta de redução de estoques em hospitais. Entretanto, a primeira aplicação de sucesso do lean healthcare foi realizada em 2002, em um hospital norte-americano, onde os conceitos enxutos viabilizaram melhorias no fluxo de pacientes.


Figura 1 - Linha do tempo. (LAURSEN, 2003)


Semelhante a muitos setores, a aplicação da mentalidade enxuta em hospitais teve como objetivo inicial a redução de custos. Entretanto, conhecendo o valor oferecido pelos hospitais, sabe-se que os maiores benefícios da implementação do lean estão atrelados ao cliente - no caso, o paciente.


A transição de mentalidade não é fácil. Hospitais, clínicas ou laboratórios que desejam implementar o lean devem realizar uma série de alterações culturais. Exemplo prático é o fato de que, no setor, trabalha-se mais com seres humanos, e menos com produtos e máquinas. Nesse momento é importante focar esforços para deixar claro que o paciente e seu bem-estar serão sempre prioridade.


Quem são os clientes?


Existem os mais variados tipos de clientes no healthcare: planos de saúde, agências reguladoras governamentais, seguradoras, médicos e enfermeiros. Mas o cliente principal, na grande maioria das vezes, é o paciente. Portanto, o fluxo de valor deve ser analisado com foco nele e em seus familiares.


Apesar de os hospitais terem os pacientes como clientes prioritários, muitas atividades são planejadas visando a otimização de recursos internos, como médicos, enfermeiros, exames e operações cirúrgicas, ao invés da qualidade do tratamento prestado aos pacientes. Esse enfoque é melhor ilustrado na Figura 2.

Figura 2 - Vista de Recursos versus Caminho do Paciente. (BRANDÃO, 2011)


Isso se deve basicamente pela estrutura física que os hospitais possuem. Como nas indústrias, os hospitais foram construídos com áreas de funções especializadas. Cada departamento conta com estrutura, caixa, funcionários e sistemas de gerenciamento próprios. Grande parte dos desperdícios nos hospitais encontram-se nas interações e trocas entre departamentos devido a quebra de fluxo na cadeia de valor da perspectiva do paciente.


O que os pacientes valorizam?


Definidos quem são os clientes, deve-se entender o que é valor para eles. Da Figura 2, ainda é possível identificar que há esperas pelo paciente entre os processos, porém a espera é uma atividade que não faz parte do fluxo de valor. O que seria então o real valor para o paciente no healthcare? Segundo Graban (2009), a definição de uma atividade que agrega valor cumpre os seguintes requisitos:


  1. As pessoas estão dispostas a pagar por ela;

  2. Transforma um produto ou serviço de alguma forma;

  3. É feita da maneira correta da primeira vez.


As atividades no setor da saúde são complexas e nem sempre o paciente tem o discernimento necessário para distinguir o que é valor ou não para ele. Nesses casos, cabe aos médicos e aos profissionais da saúde a tarefa de definir o que realmente é importante para o paciente, uma vez que são eles os detentores do conhecimento necessário.


Como é a cadeia de valor no healthcare?


Sabendo então quem são os nossos clientes e o que é valor para eles, o próximo passo é verificar por onde esse valor flui. No hospital e, considerando o paciente como cliente, a cadeia de valor pode ser aproximada da seguinte maneira: o paciente chega no departamento de emergência com alguma enfermidade (um problema a ser resolvido) e o médico deve então descobrir o que há de errado com o paciente. Nesse processo há o gerenciamento da informação (diagnóstico que guiará ou dará assistência ao tratamento) e o gerenciamento físico do paciente pelo hospital.

Figura 3 - Exemplo de fluxo de valor do paciente.


No exemplo da Figura 3, a principal saída do fluxo de valor é um medicamento receitado pelo médico. Porém, essa saída pode variar de acordo com a enfermidade diagnosticada. Caso seja um problema mais grave o paciente poderá percorrer o caminho descrito pela Figura 3 e continuar até a radiografia, fisioterapia, UTI ou outros departamentos.


O que impede o fluxo de valor?


Uma vez identificada a cadeia de valor, deve-se buscar que ela flua. Entretanto, assim como no lean manufacturing, no healthcare existem obstáculos - geralmente encontrados na forma de desperdícios - que atrapalham o fluxo de valor.


Tabela 1: Os sete desperdícios no healthcare. (os autores)

E quais são as principais dificuldades na implementação?



Resistência: em qualquer setor, há pessoas relutantes às mudanças - todos tendem a acreditar que a forma atual de realizar suas atividades já é a melhor possível.





Hierarquia: não há distinção clara de hierarquia nos hospitais e as funções de liderança não são bem divididas.




Percepção: os funcionários tendem a argumentar que cada

processamento é único, diferente da manufatura, pois cada paciente é único. Muitos profissionais acreditam que, com a inserção do lean, os pacientes passarão a ser tratados como objetos de análise, eliminando a parte humanitária dos cuidados com a saúde. É uma interpretação errada, visto que os pacientes não são considerados idênticos, mas que passam por tratamentos semelhantes. Aumentar a qualidade do tratamento significa diminuir as variações nas operações e procedimentos através da padronização.


Mas o que o lean pode trazer de benefícios?


Já vimos que a implementação do lean nos hospitais é uma longa jornada e nem sempre o caminho certo será facilmente identificável. Porém, a mentalidade enxuta no healthcare tem se mostrado uma forte aliada no combate aos desperdícios e na redução de custos. Muitos hospitais que implantaram apresentaram ótimos resultados, como é mostrado pelo quadro comparativo a seguir.

Tabela 2 - Resultados no lean healthcare. (Bertrani, 2012)

Esses são apenas alguns exemplos do que a filosofia enxuta pode trazer de benefícios ao setor da saúde, mas seu potencial está longe de ser esgotado. O lean ainda pode reduzir muitos desperdícios na área, melhorar a qualidade nos atendimentos e ajudar a salvar vidas.


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